Variedades

Variedades

Fechar
PUBLICIDADE

Variedades

Escritora gaúcha diz que teve participação em Feira do Livro de Nova Hartz cancelada por '''linguajar inadequado'''

Luísa Geisler, autora de Enfim, Capivaras , deveria conversar com alunos de sexto a nono ano do Ensino Fundamental. Editora classifica como censura . Prefeitura não se manifestou sobre o assunto.

 
 -   /
/ /

A conversa da escritora Luísa Geisler com estudantes de Nova Hartz, na Feira do Livro da cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre, não irá mais ocorrer. Segundo a autora, o convite foi retirado há duas semanas do encontro porque, conforme o produtor do evento alegou, o romance "Enfim, Capivaras" (Seguinte, 2019) continha "linguajar inadequado".

O G1 entrou em contato com a Secretaria de Educação de Nova Hartz diversas vezes durante a tarde desta quarta-feira (13), mas não obteve retorno. Por telefone, a prefeitura justificou que a secretária Veronice Zandoná estava em reunião e não atenderia a imprensa.

A produtora Simples Assim disse que irá se posicionar após manifestação oficial da prefeitura.

Luísa diz que foi convidada em julho pela organização e deveria conversar com alunos de sexto a nono ano do Ensino Fundamental. Ou seja, crianças e adolescentes que têm entre 11 e 15 anos. Segundo a escritora, a prefeitura adquiriu 15 exemplares com desconto para disponibilizar a professores e alunos da rede pública.

Esta semana, porém, recebeu a informação por meio de uma produtora que o convite para falar aos jovens estava desfeito.

"Eu vi como censura a partir do momento que a prefeitura adquiriu livros que os alunos não terão acesso. Mais do que a minha fala ser censurada, esses livros não vão circular", contesta. "Porque uma coisa é não gostar de certas palavras. Mas é esse discurso totalitário de 'não vamos falar disso' que me incomoda mais."

A obra conta a história de um mentiroso compulsivo, que alega ter uma capivara de estimação, e acaba instigando um grupo de adolescentes a tentar desmascará-lo. A autora justifica que não há nenhum termo que fira a moral de crianças ou adolescentes contemporâneos.

A autora relata, inclusive, que alguns estudantes entraram em contato com ela para reclamar da decisão e prestarem apoio.

Vereador elogia retirada do livro de circulação

O vereador Robinson Andrei Bertuol, do Partido Social Cristão (PSC), elogiou, em sessão da Câmara dos Vereadores do dia 11, a secretária de Educação e a diretora da escola da filha pela decisão de tirar o livro de circulação. Segundo ele, a menina, do 6º ano do Ensino Fundamental, teria chegado em casa “aterrorizada” porque o vocabulário usado no livro seria inadequado para a faixa etária dela.

“Como pai, fui à escola e questionei a diretora. Ela disse que tirou de circulação e levaria à Secretaria da Educação”, afirmou, no discurso. “Não vou nem citar as palavras aqui. É coisa de baixo calão. Vocabulário chulo. Me admira ser indicado ao público juvenil.”

No fim, afirmou que contatou o prefeito e soube que “a autora não virá à Feira do Livro por conta desse trabalho”.

“O ouvido das nossas crianças não é privada para entrar qualquer tipo de assunto, qualquer tipo de palavra.”

A 15ª Feira do Livro de Nova Hartz está confirmada e acontece entre 27 e 30 de novembro.

"Enfim, Capivaras", livro mais recente de Luísa Geisler — Foto: Reprodução / Companhia das Letras "Enfim, Capivaras", livro mais recente de Luísa Geisler — Foto: Reprodução / Companhia das Letras

"Enfim, Capivaras", livro mais recente de Luísa Geisler — Foto: Reprodução / Companhia das Letras

'Enfim, Capivaras' discute diferenças sociais, autodescoberta e amizade, defende editora

O romance "Enfim, Capivaras" (2019) é o mais recente da autora gaúcha. Antes, Luísa Geisler lançou "De Espaços Abandonados" (2018), "Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente" (2014), "Quiçá" (2011) e "Contos de Mentira" (2010).

Embora jovem, com 28 anos, Luísa já venceu o Prêmio Sesc de Literatura duas vezes e foi finalista dos prêmios Machado de Assis e Jabuti.

Em 2012, teve um texto incluído na coletânea "Os melhores jovens escritores brasileiros", da revista literária britânica Granta, reunindo 20 contos escritos por autores brasileiros nascidos depois de 1972.

Em nota, a Companhia das Letras, detentora do selo Seguinte, que publicou a obra, caracterizou a atitude como "censura" e declarou apoio à autora. A editora ainda defendeu que "a literatura (e a arte, em geral) deve ser questionadora" e que não deve "subestimar o leitor jovem".

Leia a nota na íntegra:

A participação da autora Luisa Geisler na Feira do Livro de Nova Hartz (RS) foi recentemente cancelada, com a justificativa de que seu livro "Enfim, capivaras" possui “linguajar impróprio” para adolescentes. A Seguinte, selo jovem do Grupo Companhia das Letras, repudia qualquer tipo de censura e, diante de uma situação como essa, gostaria de declarar todo o seu apoio à Luisa Geisler, autora duas vezes vencedora do Prêmio Sesc de Literatura, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti.

Acreditamos que a literatura (e a arte, em geral) deve ser questionadora, e reforçamos nosso compromisso de nunca subestimar o leitor jovem, publicando obras que retratem as experiências dos adolescentes de forma honesta e que promovam o diálogo — como "Enfim, capivaras".

Primeiro livro da autora voltado para o público jovem, ele se passa numa cidadezinha do interior e explora, através de vários pontos de vista, os relacionamentos entre um grupo de adolescentes que são afetados de diferentes formas pelas mentiras contadas por um colega. Com um estilo único e inteligente, a obra discute diferenças sociais, autodescoberta e, principalmente, amizade.

 

 

PUBLICIDADE

Curiosidades

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE