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Por que tramas masculinas dominam o Oscar?

Até hoje, só cinco mulheres foram indicadas para a categoria de melhor direção; e, neste ano, nenhuma mulher foi indicada como melhor diretora.

 
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Há dez anos, uma mulher ganhou o Oscar de melhor direção pela primeira vez na história da premiação.

Kathryn Bigelow recebeu o prêmio pelo filme "Guerra ao Terror", ambientado no Iraque. A obra também venceu a categoria de melhor filme.

Até hoje, só cinco mulheres foram indicadas para a categoria de melhor direção.

E o conteúdo dos premiados também indica desequilíbrio. Na última década, apenas um vencedor de melhor filme teve uma protagonista feminina: "A Forma da Água", de Guillermo del Toro, estrelado por Sally Hawkins. A maioria (incluindo "Green Book", "Birdman" e "Guerra ao Terror") se passa no universo masculino.

Sally Hawkins em 'A Forma da Água' — Foto: Divulgação Sally Hawkins em 'A Forma da Água' — Foto: Divulgação

Sally Hawkins em 'A Forma da Água' — Foto: Divulgação

Agora, em 2020, o cenário da temporada de prêmios não mudou muito. Os filmes que dominam o Oscar são "1917", "O Irlandês", "Ford vs Ferrari" e "Era Uma Vez em... Hollywood". Nenhuma mulher foi indicada a melhor diretora — o que levou a apresentadora dos indicados, Issa Rae a dizer de maneira clara depois de fazer o anúncio: "Parabéns a esses homens".

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"Adoráveis Mulheres", de Greta Gerwig, indicado a melhor filme, não foi indicado na categoria de direção no Oscar, Globo de Ouro ou Bafta. Outro sucesso de bilheteria, "A Despedida", de Lulu Wang, deu à estrela Awkafina um Globo de Ouro, mas nem o filme nem a atriz apareceram nas indicações ao Oscar.

A produtora de "Adoráveis Mulheres", Amy Pascal, deu uma entrevista à revista Vanity Fair recentemente. As declarações dela deram a entender que a proporção de gênero dos integrantes da Academia nas exibições do filme era de duas mulheres para cada homem.

Pascal disse que havia "um viés completamente inconsciente. Não sei se os homens compareceram às exibições. E não sei ao certo se eles assistiram quando pegaram seus DVDs (de exibição)".

"É um viés diferente", disse Pascal. Segundo ela, os avaliadores homens pensam que esse tipo de história não tem importâncias para eles.

Saoirse Ronan, entre Florence Pugh e Emma Watson, estrela 'Adoráveis Mulheres' — Foto: Divulgação Saoirse Ronan, entre Florence Pugh e Emma Watson, estrela 'Adoráveis Mulheres' — Foto: Divulgação

Saoirse Ronan, entre Florence Pugh e Emma Watson, estrela 'Adoráveis Mulheres' — Foto: Divulgação

A atriz Tracy Letts, que aparece no filme, acrescentou: "Eu simplesmente não posso acreditar que ainda estamos tendo essa discussão em que filmes de homens, sobre homens, e feitos para homens, são considerados filmes padrão. E as tramas femininas se enquadram nesse categoria separada e desigual ", acrescentou. "É um absurdo."

Anna Smith, apresentadora do podcast feminista Girls on Film e presidente do London Film Critics' Circle, destaca que "Adoráveis Mulheres" também é um drama de época. "Há algo a ver com esse gênero também, o que geralmente é feito por mulheres. Acho que há um certo preconceito de que a visão de um diretor precisa ser autoritária, e às vezes isso é vinculado ao masculino."

"É estranho este ano termos filmes chamados "O Irlandês" (The Irishman) e "Adoráveis Mulheres" (Little Women), e adivinhem qual deles se sairá melhor? Eu me pergunto se muitos avaliadores, decidindo o que assistir, podem ter tido uma reação inconsciente ao gênero no título."

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Smith também aponta que, por outro lado, um filme britânico de arte dirigido por Joanna Hogg, "The Souvenir", lidera as indicações ao London Critics' Circle Film Awards. "Somos cerca de 140 pessoas e temos de ver quase tudo o que sai, e é por isso que um filme como esse foi tão bem. Claramente, porque os críticos assistiram ao filme e a maioria adorou."

Juiz e júri

A aparente preferência por "tramas masculinas" é determinada pela demografia dos avaliadores da temporada de premiação? O site The Hollywood Reporter diz que o Oscar trouxe 2 mil novos avaliadores após a campanha #oscarssowhite há três anos, aumentando o número de julgadores para cerca de 8 mil.

Apesar disso, a porcentagem de avaliadoras mulheres do Oscar é de cerca de 28%, e os eleitores negros, asiáticos e minorias étnicas são 13%. Não é um grande salto em relação ao levantamento feito pelo jornal Los Angeles Times em 2012, que mostrou que os avaliadores do Oscar eram 94% brancos e 77% homens.

A maioria dos avaliadores da Academia decide as nomeações votando dentro de seu "capítulo" (por exemplo: um ator votará nas categorias de atuação), mas pode escolher entre todos os filmes elegíveis lançados naquele ano para melhor filme — embora as empresas de produção precisem garantir que estejam na lista de "lembretes" que a Academia envia.

O British Academy Film Awards (Bafta) prometeu uma mudança imediata de seus eleitores e seus sistemas, depois que as indicações deste ano apresentaram uma lista de diretores e filmes masculinos e nenhuma indicação para atores negros, asiáticos e minorias étnicas.

São 6.700 membros em todo o mundo — uma pesquisa em 2016 constatou que 41% eram mulheres, 13% eram de grupos étnicos minoritários e a média de idade era 52 anos. Todos os membros votantes decidem sobre as atuações principais e as indicações para melhor filme. As indicações de direção e roteiro são decididas por um grupo especializado — que pode ter uma demografia diferente.

James Moran, roteirista de "Dr. Who" e membro do Bafta, diz que a organização pede aos avaliadores que confirmem os filmes que assistiram e selecionem apenas indicados daqueles filmes. "Sou muito consciente e tento assistir a tudo", diz ele.

Asssita ao trailer do filme 'Adoráveis Mulheres

Asssita ao trailer do filme 'Adoráveis Mulheres'

"Mas é difícil assistir a todos os filmes, geralmente por volta de dezembro. Os filmes da temporada de prêmios nem sempre são os mais alegres de assistir no Natal. Também é muito difícil limitar 'melhor filme' a cinco indicações. É extremamente difícil escolher seus favoritos. Quais você indica — aqueles com maior probabilidade de sucesso ou os que merecem uma chance?"

"Eu amei 'Adoráveis Mulheres', e votei nele em muitas categorias", diz Moran. No entanto, ele acrescenta que o público que encontra nas exibições do Bafta é principalmente "velho, branco e masculino".

De acordo com o crítico de cinema e apresentador Jason Solomons, "todos os filmes indicados este ano são bons, e não acredito que os eleitores do Bafta são inerentemente racistas e misóginos, mas o importante das listas é que, sem dúvida, refletem a personalidade da pessoa ou das pessoas que os selecionam".

"E a lista de indicações deste ano, olhando para '1917' e 'O Irlandês', indica claramente que as preocupações dos avaliadores estão no passado e envelhecendo. Preocupa-me que, para uma cineasta entrar no clube, ela precise fazer uma filme de guerra ou dar a si uma visão de masculinidade, como Kathryn Bigelow em Guerra ao Terror e Caçadores de Emoção. É uma pena que filmes igualmente emocionais sobre maneiras de ser mulher neste mundo, como 'Adoráveis Mulheres', não tenham tanto destaque."

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No entanto, há críticos que discordam da visão sobre de que tudo se resume a um machismo inconsciente de gênero dos julgadores.

Steven Gaydos, editor executivo da revista Variety, destaca que um filme como "Adoráveis Mulheres" já foi feito muitas vezes, tanto no cinema quanto na TV. "E se o fator de exclusão for que 'Adoráveis Mulheres' é um remake de uma história popular feita muitas vezes antes — e os avaliadores não levam os remakes tão a sério quanto os originais?", questiona.

'1917': Veja o trailer

'1917': Veja o trailer

"Fora da nossa bolha louca em Hollywood, as pessoas podem não perceber que os especialistas em marketing são contratados para executar campanhas do Oscar. Agora, e se, por exemplo, o momento do lançamento for ruim ou a sua estratégia não funcionar? E se esse for o motivo? 'Adoráveis Mulheres' está faturando US$ 100 milhões nas bilheterias. Acredite: homens estão indo assistir."

No fim das contas, os avaliadores decidem sobre aquilo que é indicado para eles. No Bafta, 19% dos filmes enviados aos julgadores foram dirigidos por mulheres. De acordo com o relatório de 2019 do Center for the Study of Women in Television and Film, dos 250 filmes de maior bilheteria de Hollywood, apenas 13% foram dirigidos por mulheres.

Escolha limitada

Georgie Yukiko Donovan, diretora com origens no Reino Unido e no leste asiático, conseguiu fazer seu primeiro filme, "Ama", financiado pela iniciativa Female Film Force, mas questiona se os anos de decepção das cineastas que não conseguiram romper essa barreira afetam o número de inscrições para a temporada de prêmios.

"A menos que haja uma mudança real, muitas mulheres não enviarão seus filmes para avaliação, porque isso também pode custar dinheiro", ressalta ela.

"Existe uma necessidade prática de prêmios. É como um selo de aprovação que leva você ao próximo nível no cinema. Mas é preciso dinheiro para lançar uma campanha, então tudo está vinculado a gênero, raça, dinheiro e classe."

Melissa Silverstein, fundadora do site Women and Hollywood, argumentou que, no caso de futuras listas restritas, com falta de diversidade, o prêmio na categoria em questão deveria ser retirado. "Algo drástico precisa ser feito", argumenta. "Eu acho que também é muito importante observar quantas mulheres estão finalizando e enviando filmes e, se não, por que não?"

"É verdade que, ao trabalhar em filmes de super-heróis como 'Capitão Marvel' e a 'Mulher Maravilha', as mulheres estão agora entrando em alguns dos níveis mais altos do negócio. É importante ter uma visão da mulher sobre o que costuma ser uma narrativa de gratificação violenta, e essas histórias predominantes da nossa cultura. Prêmios são o que a imprensa presta atenção."

"Esta é uma luta fundamental, que não está acontecendo apenas no cinema, de dizer que branco e homem não são mais o padrão do nosso mundo. E, assim, quando as experiências das mulheres e dos negros são repetidamente invalidadas dessa maneira, isso não pode ser levado a sério."