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'''Minha vida mudou quando meu irmão desapareceu'''

Mulher abandona carreira para tentar encontrar irmão sequestrado, o nono crítico do governo militar da Tailândia que estava exílio e desapareceu em circunstâncias misteriosas.

 
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"Eu não consigo respirar, eu não consigo respirar." Essas foram as últimas palavras que Sitanan Satsaksit ouviu seu irmão dizer.

Eles estavam se falando ao telefone na noite de 4 de junho quando o irmão pediu que aguardasse um pouco na linha. Em seguida, Sitanan ouviu um estouro.

“No início eu achei que fosse um acidente de carro”, relatou à BBC. Depois ela começou a ouvir seu irmão e outros homens gritarem em Khmer, uma língua que ela não entende.

Seu irmão, Wanchalearm, conhecido também como Tar, estava comendo em uma barraca em frente à sua casa na capital cambojana, Phnom Penh.

Ele fugiu para lá depois que as autoridades da Tailândia pediram sua prisão por contestar com uma sátira a junta militar que chegou ao poder em 2014 por meio de um golpe (relembre no VÍDEO abaixo).

Golpe militar derruba governo na Tailândia

Golpe militar derruba governo na Tailândia

Mas Wanchalearm não havia batido o carro. Ele estava sendo sequestrado.

Desaparecimento

Testemunhas relataram ter visto um grupo de homens armados colocando Wanchalearm em um SUV preto sob a mira de armas.

Confusa e apavorada, Sitanan pôde ouvir a voz abafada de seu irmão por mais 30 minutos. Depois a linha ficou muda.

"Vinte minutos depois, uma amigo de Wanchalearm me ligou para dizer: 'Fique calma, irmã, Tar foi sequestrado'.”

Wanchalearm Satsaksit, 37, não é visto desde então.

Ele foi o nono crítico do governo militar da Tailândia que estava no exílio e desapareceu em circunstâncias misteriosas nos últimos anos.

A partir daquele dia, a vida de sua irmã, uma executiva de 48 anos de Bangkok, mudaria para sempre.

Inseparáveis

Testemunhas afirmam que Wanchelearm foi arrastado para este veículo, flagrado por câmera de segurança — Foto: BBC

Sitanan era incrivelmente próxima de seu meio-irmão Wanchalearm.

Eles pertencem a uma família de classe média, liderada por uma viúva de 63 anos (madrasta de Sitanan) com filhos de dois casamentos.

A irmã mais velha e seu irmão eram quase inseparáveis desde a infância, entre outros motivos porque sua mãe sobrecarregada estava sempre ocupada colocando comida na mesa, e Sitanan foi forçada a se tornar a figura da mãe do dia a dia para seus irmãos mais novos.

Décadas depois, voltar a falar com Tar foi particularmente especial para Sitanan, já que seu irmão passou dois anos escondido antes de ressurgir em Phnom Penh e voltar a ter contato com sua família.

Perigos do exílio

Wanchalearm foi apenas um dos muitos exilados tailandeses que se manifestaram contra o governo militar a partir da suposta segurança de estar em outro país. Mas, na realidade, fazer isso está se tornando cada vez mais perigoso.

Pelo menos oito outros ativistas pró-democracia desapareceram desde o golpe de 2014.

Os corpos dos exilados Chatcharn Buppawan e Kraidej Luelert foram encontrados mutilados e preenchidos por concreto na fronteira do rio Mekong com o Laos no ano passado. O Exército tailandês afirma não saber o que aconteceu.

Jakrapob Penkair, que serviu como porta-voz do governo sob Thaksin Shinawatra (o último primeiro-ministro antes do golpe), vive no exílio desde 2009 depois de dizer que recebeu uma dica de que estava para ser morto. Ele conhece Wanchalearm há muitos anos.

Em entrevista à BBC a partir de um local não revelado, Jakrapob disse que ficou chocado com o desaparecimento de seu amigo devido à natureza de seu ativismo. Para ele, dificilmente Wanchalearm ainda está vivo.

"Acho que a mensagem é: 'Vamos matar essas pessoas. São pessoas de fora, são pessoas diferentes de nós e deveriam ser mortas para trazer a Tailândia de volta à normalidade", diz ele.

Wanchalerm Satsaksit planejava abandonar o ativismo contra o governo militar de seu país — Foto: FACEBOOK/WANCHALERM SATSAKSIT via BBC

Deixando o ativismo

"A última vez que nos encontramos foi na África do Sul em 2018. Depois, mantivemos contato por meio de aplicativos", relembrou Sitanan em entrevista à BBC Thai.

Ela havia discutido com o irmão se ele deveria pedir asilo na França, conforme sugerido por simpatizantes, mas juntos decidiram que seria melhor para ele permanecer no Camboja, o que lhe permitiria mais oportunidades para o futuro.

"Ele disse que não queria viver uma vida monótona e ociosa na Europa", disse Sitanan.

No Camboja, seu irmão conhecia empresários, tinha contatos importantes e pretendia encerrar as atividades que tanto irritaram as autoridades tailandesas.

"Seguindo o meu conselho, ele estava prestes a deixar de ser um ativista para sempre e procurava construir seu futuro nos negócios", diz ela. "Fiquei tão aliviada."

Família no limbo

O desaparecimento de Wanchalearm abalou a família, tomada agora por tristeza, solidão e depressão.

Os irmãos mais novos de Sitanan, um bancário e um médico, querem muito ajudar a procurá-lo, mas os empregos não deixam brecha de tempo.

A mãe, aflita, diz que não suportaria perder outro filho.

"Não dá para saber a dor e o sofrimento, a menos que seja você vivendo essa realidade terrível. A dor é insuportável. Já choramos inúmeras vezes", diz Sitanan.

Antes do desaparecimento do irmão, ela era uma incorporadora de imóveis cujos objetivos na vida eram claros e simples: trabalhar duro, economizar dinheiro e gastá-lo em tranquilidade e viagens.

Mas agora a vida pacata é coisa do passado para ela, que colocou seu negócio e sua carreira de lado enquanto se dedica a encontrar seu irmão e dar seguimento a seu ativismo.

"Se eu estiver com medo, o que Tar fez arriscando seu futuro e sua vida seria em vão. Então, agora estou abertamente levando adiante sua intenção. O que Tar fez é uma inspiração para eu lutar porque o que ele fez foi a coisa certa."

Ela vasculha constantemente as redes sociais em busca de notícias sobre seu irmão.

“No dia seguinte ao do desaparecimento dele, peguei meu telefone e baixei o Twitter. Logo pela manhã, leio todos os tuítes, procurando por notícias ou desdobramentos de seu desaparecimento ou notícias de outros ativistas que estão cobrando as autoridades para investigar o caso."

Ela fala regularmente em fóruns públicos e se esforça para divulgar o desaparecimento de seu irmão e apoiar o trabalho realizado por ativistas de direitos humanos.

"Só recentemente percebi que a Tailândia tem quase 90 casos de desaparecimento forçado, um número realmente alarmante, pelo menos nove dos quais aconteceram após o golpe de 2014", disse ela.

Nova vida, novos amigos

Todas essas mudanças custaram a Sitanan amigos e colegas. Alguns a evitam porque se preocupam com seu próprio bem-estar.

Embora diga que sua família nunca recebeu ameaças de qualquer tipo, ela afirmou se manter alerta e precavida sobre sua segurança, após ouvir de outros ativistas que pode se tornar um alvo.

Daí também surgiram novos amigos entre os companheiros ativistas, defensores dos direitos humanos, advogados e famílias de desaparecidos políticos.

"Tive a oportunidade de conhecer a esposa e as mães de três vítimas e imediatamente senti que estava na mesma situação. Este destino compartilhado está além das palavras, e apenas nos abraçamos e choramos sempre que nos encontramos. A mãe de uma das vítimas diz repetidamente que está pronta para fazer tudo o que puder para lutar pelos direitos de todas as vítimas de desaparecimento."

Luta

Os esforços de Sitanan para encontrar seu irmão desaparecido envolveu diversas agências estatais da Tailândia, mas ela afirma só ter recebido respostas vazias.

A publicidade que sua iniciativa gerou atraiu o apoio de organizações como Human Rights Watch, iLaw e Anistia Internacional, que ampliaram a pressão sobre autoridades da Tailândia e do Camboja.

Sitanan passou os últimos dois meses em contato com um advogado cambojano que entrou com uma petição para investigar e prender os homens armados que sequestraram Wanchalearm.

"Esta não é uma briga, longe disso, porque não sei quem vou enfrentar. Só tento dar o meu melhor para encontrar o meu irmão", diz Sitanan.

Ela compreende, no entanto, o quão improvável é que ele seja encontrado vivo.

Wanchalearm está desaparecido desde o início de junho, e Sitanan acredita que ele provavelmente está morto, mas tem esperança de que seu corpo possa ser encontrado e ter um funeral adequado.

As autoridades locais no Camboja ainda estão investigando o caso.

A reportagem foi publicada originalmente pela BBC Thai, com colaboração de George Wright e Issariya Praithongyaem.

 

 

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