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Análise: a guerra dentro de casa

Mesmo derrotado, Trump deixa no centro do palco das disputas intestinas de um império global em decadência o reflexo de uma enorme parcela da sociedade até então relegada aos bastidores.

 
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A “guerra indireta”, ou “guerra não convencional”, significa um conjunto de estratégias desenvolvidas para combater um opositor externo, poupando energia e recursos despendidos nas guerras convencionais. Não é uma novidade. O especialista em relações internacionais Andrew Koribko, estudioso das táticas modernas do regime change (aplicadas para induzir a troca de poder num país que não atende aos interesses de um outro, mais poderoso), menciona em um de seus ensaios recentes um velho estrategista militar chinês, Sun Tzu, que há dois mil anos já proclamava a capacidade de quebrar a resistência do inimigo sem lutar diretamente contra ele como “a suprema excelência de um combate”.

Nas últimas décadas, as estratégias da “guerra indireta” ganharam enorme relevância na elaboração das doutrinas de segurança nacional ditadas pelo Pentágono, sobretudo depois que a Rússia reequilibrou sua paridade nuclear com os Estados Unidos e a China acelerou sua escalada à posição indiscutível de potência capaz quebrar a centralidade unipolar norte-americana, depois da dissolução da União Soviética e o fim da Guerra Fria.

No século XXI, à guerra não convencional foi acrescentado o conceito de “guerra híbrida”. Trata-se de uma estratégia que emprega simultaneamente, além da violência de uma eventual guerra militar, a guerra política, a guerra cibernética, a guerra jurídica (lawfare) e uma série de outros métodos de influência, como a permanente disseminação de fake news e intervenções nas manifestações de protesto popular e nos processos eleitorais de outros países para inverter seu resultado, rompendo a coesão do tecido social e criando uma dinâmica de tal forma vertiginosa e complexa que confunde e reduz a agilidade e a eficácia de contra-ataque do opositor.

VÍDEO: Capitólio já foi alvo de violência outras vezes na história

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A tensão crescente que envolve a posse do presidente eleito Joe Biden leva a supor que uma “guerra híbrida não convencional” está sendo travada, pela primeira vez, não contra seus inimigos externos, mas dentro do próprio espaço americano, com um desfecho ainda imprevisível. Na Europa, tradicionalmente alinhada à antiga hegemonia “benigna” da maior e mais antiga democracia moderna, reina perplexidade e desconforto diante do gesto “infame” de um presidente que recusa a transferência de poder de acordo com o sagrado ritual que rege o comportamento nas posses republicanas. É inédito e desconcertante o esquema monumental de segurança que está sendo montado para 20 de janeiro, descrito por um dos assessores mais próximos a Joe Biden como “de nível semelhante ao aplicado a Fort Knox”, a cidadela impenetrável no estado de Kentucky, que serve de base ao Exército dos Estados Unidos.

No calor do impacto mundial provocado pela invasão de bárbaros trumpistas ao Capitólio, o presidente francês Emmanuel Macron não hesitou em gravar um pronunciamento inusitado, às 3 horas da manhã, num tom emocionado e teatral, afirmando que a própria ideia universal de um “homem, uma voz”, estava sendo demolida”. Menos literário e mais pragmático, Konstantin Kosatchev, presidente da comissão para assuntos estrangeiros do Conselho da Federação da Rússia e uma das poucas personalidades de seu país a se expressar no calor dos acontecimentos, preferiu usar um tom realista: “a festa da democracia acabou. Os Estados Unidos não traçam mais o caminho a seguir e perderam o direito de exigir que qualquer caminho seja seguido. Menos ainda, de impô-lo aos outros”.

A festa da democracia pode não ter acabado, mas está suspensa por tempo indeterminado.

Donald Trump não é um parêntesis de quatro anos na história americana que chega ao fim em 21 de janeiro de 2021, nem com seu antecipado afastamento do governo, nem com a suspensão de suas contas no Twitter, Facebook, Google e outros atores das redes sociais, depois da indignação tardia - e de certa forma oportunista - dos milionários de Sillicon Valley. A “guerra híbrida” de Trump tem raízes mais profundas que seu curto mandato.

Trump governou sob uma nova doutrina oficial de estratégia de segurança nacional publicada pelo Pentágono em dezembro de 2017, cujos pontos principais, destacados pelo cientista político brasileiro José Luís Fiori em seu último livro "A Síndrome de Babel e a Disputa pelo Poder Global", podem ser resumidos da seguinte maneira: defesa intransigente do Estado nacional, contra qualquer projeto “globalista” ou “cosmopolita”, e contra toda ideia de “governança “multilateral” do mundo; rejeição da luta pela imposição de “valores universais”, ao contrário do que os Estados Unidos sempre defenderam em sua história; e o reconhecimento explícito de que cabe aos americanos arbitrar questões que envolvam o interesse nacional do país, punindo aqueles que não se submetam a seu veredicto.

Fiori assinala que essas idéias não são uma “obra idiossincrática e passageira” da administração Trump: “são ideias e diretrizes que passaram por uma longa disputa interna, dentro da sociedade e dentro do establishment norte-americano, e sinalizam a vitória – até o momento, ao menos – de seus segmentos mais agressivos contra toda e qualquer instituição multilateral que escape ao controle monopólico do Estado americano”.

O bordão “America First”, tão martelado por Trump durante seu governo, dita as regras do poder americano há bem mais tempo. Em 2000, exatamente um ano antes dos ataques às Torres Gêmeas, o Departamento de Defesa produzia um documento sob o título Joint Vision 2021, cujo objetivo final era visualizar possíveis guerras americanas justamente no fatídico ano que o calendário cristão acaba de fechar. O documento abertamente proclamava a necessidade de “dominância de espectro total” dos Estados Unidos sobre o mundo, na sua incontestável superioridade militar, econômica e financeira.

A arrogância da “Full Spectrum Dominance” foi atenuada com a institucionalização da “liderança pela retaguarda” (Leading from behind) nos mandatos de Barack Obama, ainda que o presidente democrata tenha ordenado bombardeios aéreos em sete países e tenha usado suas forças de elite em operações especiais americanas em 105 nações, o que equivale a mais de metade dos países do planeta.

E há ainda o vírus das multidões. Não o vírus mortal que há um ano obrigou a humanidade a desacelerar as engrenagens do sistema, mas o vírus dissecado por Steven Mann, especialista em política internacional com longa carreira na diplomacia americana, em seu livro "A Teoria do Caos e o pensamento estratégico", de 1992.

Mann descreve abertamente a “dinâmica não linear” e a variedade de meios usados para implementar e estender o “caos controlado” contra países envolvidos numa batalha geopolítica: “para mudar a energia de um conflito popular”, ele escreve, “precisamos mudar o software; hackers já provaram que a melhor forma de mudar a energia é através da introdução de um vírus. E o que é a ideologia, senão um outro nome para o software humano?”

O vírus de Mann tinha como selo de fabricação o “pluralismo democrático e o respeito para com os direitos humanos”, mas vem sendo amplamente utilizado em qualquer lugar, e em diferentes contextos. Foi disseminado nas “revoluções coloridas”, como foram chamados os movimentos que se desenvolveram em diferentes países da antiga União Soviética, na China e nos Balcãs, no começo do século XXI, assim como no Oriente Médio e no norte da África em anos posteriores, através de um mesmo mecanismo incontrolável: o vírus “infecta” algumas pessoas, atuando sobre suas sensibilidades políticas, e essas “vítimas” por sua vez, “espalham” as novas ideias, provocando um “enxame” de contágio político de proporções epidêmicas.

Trump representa o outro lado do espelho deste somatório de doutrinas e estratégias de guerras desenvolvidas ao longo dos últimos anos, adaptadas por uma extrema-direita messiânica, amoral e fanática para o próprio uso doméstico. O alvo da guerra híbrida não convencional e seu vírus está agora dentro de casa. Mesmo derrotado, Trump deixa no centro do palco das disputas intestinas de um império global em decadência o reflexo de uma enorme parcela da sociedade até então relegada aos bastidores, onde o pior dos Estados Unidos da América emerge da sombra. Ao longo dos séculos, a humanidade aprendeu que impérios não duram para sempre, e que um império em declínio é sempre mais perigoso que um império em ascensão. Aprendeu também que a história não se repete a não ser como farsa e, portanto, nada mais será como antes. Só resta agora se agarrar ao fio da esperança de que dias melhores ainda virão.

 

 

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