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Wuhan completa um ano do primeiro lockdown contra a Covid-19

Em 23 de janeiro de 2020, 11 milhões de habitantes passavam a obedecer a um rigoroso bloqueio, imposto nas semanas seguintes à maioria dos países em todos os continentes. A China parece ter encontrado métodos para domar a propagação do vírus, mas o m

 
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Há exatamente um ano a cidade de Wuhan acordava isolada do mundo. Ruas desertas, fronteiras da megalópole cercadas por forças de segurança, milhares de habitantes impedidos de sair de suas residências durante mais de dois meses. Dias depois, foi a vez de toda a província de Hubei entrar em lockdown. A experiência serviu de modelo para o resto do mundo já que a estratégia continua se mostrando como a mais eficaz, até hoje, para barrar a doença.

Atualmente, a China se gaba e insiste ter controlado a Covid-19. De fato, os focos são rapidamente isolados e os casos e mortes comunicados pelas autoridades chinesas são reduzidos em relação ao resto do mundo.

Em Wuhan, a vida parece ter retomado parte do ritmo de antes, mas são visíveis as cicatrizes da experiência vivida pela população durante mais de dois meses no ano passado. Muitos ainda usam máscaras, hábito que poucos tinham antes do lockdown, vários carregam o peso da perda de familiares e amigos.

Médicos se preparam dentro de ônibus antes da chegada de uma equipe da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Wuhan, em 14 de janeiro de 2021 — Foto: Thomas Peter/Reuters

A chegada de uma equipe da Organização Mundial da Saúde (OMS) na semana passada lembra aos moradores da megalópole o fardo o título de berço da pandemia. Apesar dos primeiros contágios terem sido registrados em frequentadores e comerciantes do grande mercado de frutos do mar, pesquisas internacionais não descobriram até hoje a origem do vírus.

A primeira morte conhecida da Covid-19, um homem de 61 anos, costumava fazer suas compras no local. Mas os especialistas não descartam a hipótese de que o coronavírus possa ter surgido em outro lugar.

O novo normal

Como em boa parte o mundo, nem Wuhan, nem a China estão perto de retomar a normalidade de antes da pandemia. Com a aproximação do Ano Novo lunar e das férias do início da primavera – quando milhares de pessoas viajam para encontrar familiares – as autoridades chinesas reforçam as restrições sanitárias.

Homem faz teste para Covid-19 em Wuhan, durante campanha de testagem em massa, em foto de arquivo — Foto: Hector Retamal/AFP/Arquivo

A descoberta de focos da doença no norte do país, especialmente em Shijiazhuang, capital da província de Hebei, e em alguns bairros de Pequim, leva 11 milhões de chineses a permanecer em casa, em uma espécie de repetição de janeiro de 2020. As férias escolares foram adiantadas em três semanas. O ano de 2021 era esperado como o ano da volta ao normal, mas nada tem de ordinário.

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"O bloqueio de Shijiazhuang me impede de trabalhar. Não posso sair de casa e, para uma trabalhadora independente, como eu, significa que eu não vou ter nenhum salário durante o confinamento. Se isso continuar durante muito tempo, vai ser complicado. Eu e meus amigos estamos tentando manter o otimismo por enquanto. Pensamos que as autoridades vão controlar rapidamente esses focos da doença", diz à RFI Li Dawei, de 31 anos.

Essa confiança não é expressada à toa. A rapidez das autoridades para gerenciar os focos em Hebei contrasta com a lentidão do início da epidemia em Wuhan, há um ano. Em apenas alguns dias, profissionais da saúde foram enviados de outras regiões para reforçar as equipes encarregadas de testar a população. Dezenas de moradores de zonas rurais foram levados a centros de quarentena. Os pontos de acesso a Pequim, próxima à esta província, foram fechados.

Com estradas bloqueadas e trens estacionados, uma grande parte de Hebei deve permanecer em suas casas durante o Ano Novo chinês com o intuito de não se tornar a nova Wuhan. As autoridades exigem um teste negativo para deslocamentos, além da obrigação do isolamento de 14 dias aos moradores da província que viajam a outras regiões.

Estudantes em Wuhan mantêm distância e usam máscaras ao chegar à escola em imagem de arquivo — Foto: Chinatopix/AP/Arquivo

"Primeiro o povo, primeiro a vida"

Aberta no último 15 de outubro, uma imensa exposição tem como tema os heróis da luta contra a Covid-19 em Wuhan. A mostra deveria durar três meses, mas foi prolongada para acompanhar o aniversário do primeiro ano de confinamento da megalópole.

A exposição "Primeiro o povo, primeiro a vida" conta com 33 instalações, esculturas, vídeos e fotos que relembram o cotidiano dos moradores e hospitais no início da epidemia. Para acolher os visitantes, uma linha cronológica lembra as decisões tomadas pelo presidente chinês, Xi Jinping, durante a epidemia. Um telão exibe todos os discursos do líder durante a crise sanitária.

Os visitantes parecem não se incomodar com o peso da propaganda já que a emoção do público parece falar mais alto. É o que diz Wang Fang, de 68 anos, que perdeu a sogra para a Covid-19. O sogro, de 88 anos, sobreviveu após passar mais de 50 dias no hospital, boa parte deste período em coma.

"Meu sogro não sabe tudo o que aconteceu aqui. Ontem mesmo ele me dizia que não lembrava do lockdown. Por isso quero trazê-lo para ver essa exposição. A mostra é muito bem feita, vale a pena visitá-la", afirma.

Na cidade que vive o trauma de ser apontada como o berço da pandemia, todo o cuidado é pouco. Na saída da exposição, um veículo-robô vaporiza desinfetante: um sinal de que a guerra contra a Covid-19 ainda não foi vencida.

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