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Ataques a pessoas de origem asiática geram manifestações e debate sobre leis para crimes de ódio nos EUA

Agressões físicas e verbais contra a minoria não são novidade no país, mas se acentuaram com a chegada da pandemia de Covid-19.

 
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O registro quase diário de agressões físicas sofridas por pessoas de origem asiática nos Estados Unidos, especialmente idosos (leia mais abaixo), tem pressionado autoridades a alterar legislações referentes a crimes de ódio e gerado uma série de manifestações, mas não são exatamente uma novidade para essa comunidade.

Em relatos à imprensa norte-americana, é comum encontrar histórias de ataques verbais e humilhações. Segundo as vítimas, o que cresceu desde o início da pandemia de Covid-19 foi o tom das agressões, agravado especialmente pela retórica do ex-presidente Donald Trump, que chamava repetidamente o coronavírus de “China virus” e se referiu algumas vezes à doença como “China flu” (febre da China) ou “Kung-flu”.

Manifestantes participam de protestos contra a violência direcionada a asiáticos nos EUA, em Los Angeles, no sábado (27) — Foto: AP Photo/Damian Dovarganes

Em muitos dos ataques, é comum que o agressor use o termo popularizado pelo ex-presidente e acuse a vítima de “trazer o vírus” ao país.

Há um ano, em uma reportagem de 23 de março de 2020, a chinesa Yuanyuan Zhu, de 26 anos, relatava ao “The New York Times” como havia sido xingada e tinha recebido uma cusparada de um homem que “parecia normal” quando estava a caminho da academia, dias antes de iniciar a quarentena.

A mesma notícia citava que dezenas de asiáticos admitiam sentir medo de saírem sozinhos, após terem sido ofendidos e acusados de serem responsáveis pela pandemia enquanto faziam compras em supermercados ou usavam transportes públicos.

Um menino de 16 anos tinha sido agredido fisicamente na escola, em San Fernando Valley, na Califórnia, e uma mulher, mesmo usando máscara, foi chutada e socada em uma estação de metrô em Nova York. Em comum, os dois tinham a origem asiática.

Ataques contra idosos asiáticos filmados em 2021:

  • Em 28 de janeiro, o tailandês Vicha Ratanapakdee, de 84 anos, saiu para caminhar de manhã e foi atacado por um homem que correu até ele e o derrubou violentamente no chão. Com uma hemorragia no cérebro, ele morreu dois dias depois. O ataque foi filmado por câmeras de segurança da vizinhança e o autor foi identificado como Antoine Watson, de 19 anos.
  • A chinesa Xiao Zhen Xie, de 76 anos, aguardava para atravessar uma rua, em Los Angeles, no dia 17 de março, quando recebeu um soco no rosto. Ela encontrou um pedaço de pau na rua e revidou, ferindo seu agressor, que foi levado a um hospital e depois preso. Testemunhas filmaram a confusão após a briga. No mesmo dia, Stephen Jenkins, de 39 anos, também havia atacado Ngoc Pham, de 83 anos, que sofreu uma fratura no nariz e possivelmente outra no pescoço.
  • No dia 30 de março, um homem derrubou uma idosa filipina de 65 anos perto da Times Square, em Nova York, e a chutou violentamente na cabeça, enquanto proferia ofensas racistas. Apesar de filmarem a cena, pessoas próximas não ajudaram a vítima durante o ataque, e ela foi levada a um hospital com diversas lesões e uma fratura na bacia. Nesta quarta, o agressor foi identificado como Brandon Elliot, de 38 anos, e preso.

Ngoc Pham, de 83 anos, foi vítima do mesmo agressor que Xiao Zhen Xie, em Los Angeles, no mesmo dia — Foto: Reprodução/GoFundMe

Crimes de ódio

“O crescimento nos incidentes de ódio contra asiáticos não veio do nada. Existe uma longa e problemática história de racismo e discriminação", diz à agência Associated Press a deputada estadual de Massachusetts Tram Nguyen, primeira vietnamita a ser eleita naquela Câmara.

Ela se lembra de 2016, quando trabalhava como advogada e conversava em vietnamita com um cliente, um recém-imigrante, do lado de fora de um tribunal em Boston, quando um homem passou de bicicleta e disse a ela para sair de país porque “aquele não era seu lugar”.

“Pergunte a qualquer asiático e tenho certeza que a maioria de nós terá histórias sobre ser ridicularizado pela aparência, seja por nossos olhos puxados ou nossa baixa estatura, por nossos sotaques, no caso daqueles que são imigrantes”, diz a deputada, que afirma que a pandemia intensificou o estigma.

“Mesmo para aqueles de nós que estamos aqui há gerações, existe essa suposição geral de que somos eternos estrangeiros”, acrescenta.

Nguyen é uma das coautoras de um projeto para expandir e esclarecer as leis de crimes de ódio em Massachusetts. Entre outras medidas, o projeto combinaria as duas leis existentes de crimes de ódio do estado e adicionaria gênero e status de imigração como classes protegidas ao determinar se um crime de ódio foi cometido.

Embora esse tipo de ação possa ser importante, porém, ela não é suficiente. O mais difícil nesses casos é provar que a motivação do crime foi pelo fato de a vítima ser de origem asiática. Um exemplo claro aconteceu no caso do tiroteio nas casas de massagem em Atlanta, em 17 de março, no qual seis dos mortos eram mulheres asiáticas.

A própria polícia local disse que o assassino já havia visitado as casas de massagem antes, tinha uma compulsão sexual e queria “eliminar a tentação”, e descartou inicialmente a possibilidade de um crime de ódio.

Dias depois, entretanto, passou a ser alvo de críticas quando foi descoberto que seu porta-voz tinha um perfil em uma rede social com fotos de camisetas com estampas que diziam que o coronavírus foi importado da "Chy-na". A estampa é de uma logomarca semelhante à da cerveja Corona, mas se lê Covid-19.

A deputada federal Judy Chu participa de manifestação contra a violência direcionada a asiáticos nos EUA na Califórnia, em 26 de março — Foto: Frederic J. Brown/AFP

A deputada federal Judy Chu demonstrou inclusive a preocupação de que o autor dos ataques possa não ser indiciado por crime de ódio quando visitou Atlanta, após as mortes, para oferecer solidariedade à comunidade asiática local. Ela faz parte de um grupo de legisladores que pressiona o Congresso pela aprovação do "No Hate Act".

Trata-se de um projeto que, entre outras medidas, forneceria subsídios aos estados para melhorar a denúncia de crimes de ódio e permitiria que os tribunais exigissem que as pessoas condenadas sob uma lei de prevenção de crimes de ódio já existente participassem de serviços comunitários e programas educacionais como condição para a libertação supervisionada.

Ele já havia sido aprovado pela Câmara em 2020 como uma seção do "Heroes Act" - um projeto de lei de alívio da Covid-19 - mas nunca foi aprovado no Senado.

Quando esteve em Atlanta, após os ataques às casas de massagem, o presidente Joe Biden também pediu que o Congresso votasse para aprovar a lei, concordando que isso aceleraria a resposta do governo federal aos crimes de ódio que aumentaram durante a pandemia.

“Nosso silêncio é cumplicidade. Não podemos ser cúmplices. Temos que falar. Temos que agir", disse Biden, na ocasião.

Direitos desrespeitados

Mas nem sempre os ataques a asiáticos são necessariamente crimes. Em muitos casos, há discriminação, recusa em fornecer atendimento e outros tipos de assédio ou humilhação.

Manifestantes participam de marcha contra violência a asiáticos em Chinatown, em Seattle, Washington, no dia 13 de março — Foto: David Ryder/Getty Images/AFP

Em um editorial no site do jornal “USA Today”, na terça-feira (30), os fundadores do Stop AAPI Hate escrevem: “O fato é que 90% dos incidentes relatados a nós não são crimes de ódio porque nenhum crime subjacente foi cometido. Muitas são violações dos direitos civis envolvendo discriminação no local de trabalho, restaurantes e estabelecimentos comerciais e podem ser processadas em tribunal civil”.

Um centro criado especialmente para registrar incidentes de ódio, violência, assédio, discriminação e intimidação infantil contra pessoas de origem asiática nos EUA, o Stop AAPI Hate, recebeu 3.795 relatos desde sua criação, em 19 de março de 2020, até o dia 28 de fevereiro deste ano. Desse total, 503 aconteceram apenas em 2021.

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