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Indígenas empreendem nos centros urbanos da Amazônia: '''É nossa história, nossa arte''', diz artesão da etnia Waiwai

Dia da Amazônia: Contrários à exploração em áreas protegidas, indígenas têm no artesanato e em produtos medicinais opção contra garimpos, além de ser fonte de renda fora das aldeias.

 
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Indígenas que vivem em centros urbanos de Belém e do interior do Pará refletem sobre questões que envolvem a pluralidade e força criativa, tão presente na identidade amazônica.Para eles, o tema fica ainda mais evidenciado neste domingo (5), Dia da Amazônia.

A arte e os saberes indígenas têm ocupado espaços, além das fronteiras das aldeias, e se transformaram em alternativas de sustento para comunidades que sofrem com falta de recursos financeiros e com o avanço das ações de exploração em áreas que deveriam ser protegidas.

Para os indígenas, a base do empreendedorismo é a prática de atividades sustentáveis, que mantém a preservação da natureza por meio do uso de matéria-prima extraída da floresta para subsistência. Os recursos são utilizados com o repertório cultural e ancestral que as populações tradicionais carregam.

De acordo com o Instituto Kabu, organização indígena, a produção é 'etnocomunitária', que é uma produção tradicional repassada pelos mais velhos aos mais jovens de forma utilitária e que parte da relação com a floresta e as formas de vida. Isso ocorre em diferentes etnias indígenas.

Tradição e sobrevivência

Indígena faz do artesanato fonte de renda vivendo na capital Belém. — Foto: Brenda Rachit / G1

A realidade dos indígenas na Amazônia é diversa. No Pará, aqueles que vêm para a capital encontram muitos desafios. Rodrigo Nascimento é indígena da etnia Waiwai e vende artesanato para custear os estudos e as despesas da família, que hoje se fixou em Belém. Rodrigo é da aldeia 'Mapuera', que fica no oeste do Pará. O município mais próximo é Oriximiná, que fica há três dias de canoa.

O indígena veio a Belém estudar odontologia na Universidade Federal do Pará (UFPA), logo depois trouxe a família para poder cuidar mais de perto dos dois filhos pequenos.

Em um momento de extrema necessidade financeira, o estudante pediu ajuda aos familiares que moram na aldeia, mas eles não tinham dinheiro pra ajudar. A família enviou o que tinha: artesanato.

"O curso de odontologia não é fácil, o material é muito caro. Eu não tenho mais meus pais, eu tenho irmãos, tios. Mandei mensagem pra minha família, porque eu estava precisando para comprar meu material e não tinha dinheiro. Liguei e eles falaram que na aldeia não tinha dinheiro, só artesanato. Eu não conseguia vender, porque não conhecia os professores, mas certo dia alguns deles começaram a ver meus produtos. Agora eu abri essa loja, não tinha nada de espaço, mas graças a Deus a gente conseguiu com a prefeitura”, relata Rodrigo.

Rodrigo trabalha em parceria com a esposa e agora vendem os artesanatos dentro do Mercado de Carne, no complexo do Ver-o-Peso, principal cartão postal da capital do Pará. Ele se orgulha de se sustentar a partir de um trabalho que carrega tradições e cultura de origem.

"Tem gente que tem vergonha, mas eu não, porque isso aqui eu traço nas minhas costas. Eu sou indígena mesmo. Eu tô mostrando para os brancos o que a gente produz, a nossa arte”

O estudante enfatiza a importância de ser o próprio indígena a estar à frente da comercialização dos produtos. Segundo Rodrigo, quando o não indígena compra as artes pra revender, geralmente ele só repassa o artesanato, enquanto que o indígena tem propriedade para explicar o processo de produção, os elementos, a história que aquele objeto carrega.

O objetivo do artesão é expandir cada vez mais o trabalho desenvolvido e também ceder espaço para outros indígenas que produzem arte.

"O branco compra nossos produtos pra vender, aí não sabe explicar onde foi produzido, só se torna um objeto. A gente não, a gente vai explicar o processo. Isso aqui é nossa história, nossa arte. Então é muito importante a gente ocupar esses espaços. A gente tá se organizando cada vez mais", afirma o estudante Waiwai.

Sustento e defesa da floresta

Aldeia indígena Munduruku, no Pará — Foto: Marquinhos Mota/ FAOR

Alessandra Korap, da etnia Munduruku, é da Federação Dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa) e conta que, há dois meses, os produtos feitos nas aldeias estão sendo comercializados no centro do município de Itaituba, sudoeste do Pará. Ela diz que anda muito pelas aldeias e via a beleza de tudo que era produzido, ao mesmo tempo em que percebia as necessidades financeiras das comunidades. Foi quando surgiu a ideia de potencializar o trabalho dos produtores indígenas.

A Associação de mulheres Munduruku Wakobor?n organizou, então, um espaço pra comercializar os produtos das aldeias em Itaituba. O ‘Centro de Artesanato Munduruku’ reúne acessórios, artesanato e também remédios, feitos com técnicas e saberes dos povos tradicionais. Os recursos obtidos com a venda dos produtos se traduzem em qualidade de vida para as aldeias.

Indígenas abrem o 'Centro de Artesanato Munduruku' para expor e comercializar suas artes em Altamira, sudoeste do Pará — Foto: Associação Indígena Pariri

Alessandra conta que o custo com combustível é muito alto e os artesãos não tem condições de sair das aldeias por conta própria para vender os produtos. Muitos fazem 'vaquinha' para conseguir alimento.

A indígena conta que na região dos Munduruku a questão do garimpo é muito forte e ela lamenta que a terra seja estigmatizada pela extração do ouro e as consequências socioambientais.

Segundo ela, a abertura de oportunidade para que indígenas produzam e vendam o fruto do trabalho nas aldeias garante autonomia e independência, além de ser uma alternativa pra quem se vê refém do trabalho nos garimpos.

"Quando entreguei o dinheiro para elas (artesãs), elas ficaram felizes porque poderiam trabalhar e estar perto dos meus filhos. Os homens disseram que ao invés de irem pro garimpo, agora iam poder trabalhar sem destruir a nossa terra. Queremos defender o rio, defender o território, mas também mostrar um caminho financeiro", relata.

Arte Kayapó

Exposição da arte Kayapó no Espaço São José Liberto, em Belém.

Júlio Santos / Igama

O maior destaque do trabalho dos Kayapós são as mulheres artesãs. Elas que fazem tecido, cesto para carregar mandioca, bolsas, pulseiras, colares, entre outros produtos. O artesanato Kayapó tem ganhado visibilidade por meio da parceria entre aldeias, localizadas nas terras indígenas Baú e Menkrangnoti, no sul do Pará. As aldeias se organizaram e fundaram o Instituto Kabu, que reúne ao todo 12 comunidades indígenas”.

A arte das indígenas Kayapós está exposta em Belém do Pará pela primeira vez. A exposição "Menire: a mulher Kayapó e seu trabalho" reúne fotografias, produtos, instrumentos indígenas que já são vendidos e expostos em Brasília, desde 2019, e também são vendidos de forma online, em loja virtual”.

Irenó Kayapó é uma das artesãs parceiras do Instituto Kabu e trabalha há 4 anos com essa produção. Ela conta como as vivências da infância refletem no processo criativo e na manutenção da tradição indígena.

“Desde criança a gente brincava, mas não de boneca. A gente vê as nossas mães começar a pintar, pintar a gente. Eu via as pinturas e comecei a me interessar, a copiar".

Arte Kayapó

O vice-presidente do Instituto Kabu, Mydjere Mekrãgnotire, explica que nas aldeias quase todos são artesãos e eles perceberam que as obras eram um produto com potencial de comercialização, que poderiam ter um alcance maior pra captar recurso e fomentar a independência dos indígenas a partir do próprio trabalho.

Indígenas artesãs transmitem a vivencia e cultura do seu povo através da arte. — Foto: Instituto Kabu

Foi quando pensaram em levar a tradição para fora das aldeias. Ele relata que houve muita procura pelo produto, então dobraram os artesãos e começaram a se organizar.

Segundo o Instituto, todo o material foi pensado de forma colaborativa. O design proposto para cada produto foi apresentado e aprovado pelos principais caciques das aldeias participantes. A produção é 100% indígena, mas o trabalho é dividido entre homens e mulheres. Culturalmente, alguns produtos são feitos exclusivamente pelos homens, como cocares e alguns instrumentos.

O nome da exposição que mostra um pouco do trabalho das Kayapós carrega a identidade das mulheres. 'Menire' é como elas se identificam e, geralmente, o termo vem seguido de adjetivos como 'fortes', 'trabalhadoras' e 'belas', características que as acompanham desde o nascimento até quando a idade pede que elas se afastem do trabalho pesado e transmitam os saberes e conhecimentos daquele povo aos mais jovens.

A ocupação dos indígenas em espaços de visibilidade para o trabalho feito nas aldeias estabelece uma relação que vai além do valor de venda dos produtos, como afirma o coordenador comercial e tecnológico do Instituto de Gemas e Joias da Amazônia (Igama), Thiago Albuquerque.

"Quando se tem um fundo de base, trabalhando todo um conteúdo, um histórico, uma produção específica, a questão do valor negociado chega a ser 5% do produto. Isso vai fazer com que gere negócios e continue a produção nas aldeias. Quando essa comercialização é feita nos grandes centros e esse produto passa a ser exportado, a gente consegue fazer com que a manutenção desse trabalho continue existindo. Então, é um empreendedorismo pulsante indígena", explica.

A mostra 'Menire: a mulher Kayapó e seu trabalho" fica aberta em Belém até o dia 10 de setembro, no Espaço São José Liberto.

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